Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

2.4.18

Eu e o fogo...

Minha relação com o fogo foi sempre a de um Prometeu egoísta. Era tudo só pra mim. Meu pai não era Zeus, mas tentou me pregar à rocha pela eternidade pelo conjunto da minha obra pirotécnica. O problema é que a águia que ele contratou era vegetariana. Venceu o fogo, venceu a carne. Estava criado o churrasco!

20.11.15

Bronquite 2

Notívago compulsório, com minha boemia peregrina, cumprida na cola de minha mãe, mais ou menos entre junho e setembro, ano após ano, era a minha sina infantil de asmático. Vaporizador era o que havia de mais avançado em termos de recurso doméstico para o combate da marvada. Quase sempre não dava nem pra saída. (Mais tarde, já adolescente, mas apenas até as primeiras notícias de paradas cardíacas em usuários contumazes, valia também a bombinha de Aerolin). Tudo era tentado antes do HUAP (Antônio Pedro para os mais chegados): posição para abertura forçada dos brônquios, banho gelado com insistente jorro sobre o peito, Revenil para a expectoração, distração para fingir que a crise não existia e o indesejado supositório. Invariavelmente este arsenal de estratégias se encerrava por volta de duas ou três da manhã. Lá íamos nós, eu e minha mãe, também invariavelmente, para a única droga que me trazia de volta: ADRENALINA na veia, na minha maca cativa. Pegávamos um táxi da praça ou minha mãe pedia ao vizinho, seu Weber, para nos levar. Normalmente, com a ajuda do vento da janela, que acabava com a pirraça dos brônquios, eu saltava do carro bom, mas bastavam uns minutos para o retorno da chiadeira no peito. Dessa vez, não foi de casa que partimos, mas da casa de minha avó materna. Saímos com minha tia e uma médica amiga da família. Como era noite alta, entramos num táxi (era tempo em que táxis tinham cores variadas). Este era laranja, um Passat muito velho. O trajeto era relativamente curto, mas coube muita coisa no pouco tempo. Minha tia no banco da frente, eu atrás, à direita, minha mãe ao centro e Gracinha à esquerda. Sinal verde em uma quase madrugada e o motorista parado no cruzamento. Estranham as adultas, mas continuam a conversa. O carro arranca segundos depois que o sinal fecha, a tempo exato de tomar uma pancada em cheio, na lateral de Gracinha. A laranja de lata, amassada, roda na pista com a força do impacto. Para o hospital foi nossa querida amiga em meu lugar, curado da crise por uma dose cavalar da droga de fabricação caseira.

Bronquite

Construo inteiramente esse fragmento pelos relatos que ouvi: estou no colo de minha mãe, tenho cinco meses de idade. A falta de ar me assume e me debato. Em desespero, corre a mãe recente pela escadaria do 5º andar, em direção ao segundo, onde reside – reside agora enquanto lembro – a minha avó, em busca de socorro ou pra dividir o desespero. No embalo da correria, desprende-se de mim uma placa de catarro, que fisga, feito língua de lagarto, o chão da sogra doceira, costureira, tecelã de saudade. Recupero-me de imediato. Estava inaugurada a minha bronquite...

10.1.14

Jogo de botão

“Eu nunca mais jogo botão!”, foi o que disse meu pai quando sonhei alto com a possibilidade de, um dia, dar de 10 a 0 nele. E não aconteceria mesmo, ele era muito melhor. Jogávamos bastante, quase toda noite, depois da janta. Eram campeonatos extensos, inchados, que misturavam diversas federações – uma espécie de Brasileirão de todas as séries. Entravam todos os times que eu conseguia angariar, algo em torno de 15 ou 20, acho. Dividíamos todos entre nós dois e distribuíamos pelas chaves, como uma espécie de técnicos onipotentes. Não importavam os times, a competição era entre os seus comandantes (na fórmula 1 seria como um campeonato de “construtores”). Acontecia que dois times “meus” (em muito menor frequência) ou “dele” tivessem que se enfrentar na final, e nesses casos um de nós já levantava a taça antecipadamente, mas sem deixar de cumprir tabela – era jogo de entrega das faixas. A estrutura era complexa: as balizas eram de madeira, vindas direto da marcenaria perto de casa, com redes coladas de filó e sobra suficiente para estufarem nos gols; as bolas eram redondas de fato, “fornecidas” pelas “chucas” de cabelo da minha irmã, devidamente lixadas até tornarem-se lisas e brancas; os goleiros eram de caixas de fósforos cheias de moedas e pregos, encapados com papel e com escudo colado; o campo era o chão do meu quarto, marcado a giz molhado, surrupiado da escola, nas reentrâncias dos tacos de madeira; todos os botões recebiam nomes dos jogadores reais de cada time à época, colados com fita adesiva, em cima ou em baixo; as palhetas eram fichas coloridas utilizadas nos ônibus, que a memória já quase não consegue explicar o que eram. Nos divertíamos e brigávamos também. Éramos nós os juízes, éramos nós as crianças. Ficaram na memória muitas goleadas, jogos tensos, vitórias apertadas, títulos suados, gols olímpicos, por cobertura, “de cabeça”, bolas impossíveis, defesas extraordinárias... Mas houve um dia em que o impossível foi desmoralizado. Jogávamos um jogo trivial, de meio de campeonato, eu com o Vasco, se não me engano, e a contagem começou: um, dois, três a zero, pra mim. A criança que habitava meu pai, e que também vive dando o ar da graça comigo, tomou conta do pedaço. Contrariado, humilhado e nervoso, aquela estrutura óssea de adulto não cabia no mau-humor infantil que tomou conta do seu Jorge quando cheguei ao sexto gol. Estávamos ainda no primeiro tempo e a essa altura minha mãe, a única expectadora distante de sempre, era seguidamente convocada a presenciar a façanha. A gozação atiçava ainda mais o moleque, que teria dado a vida para voltar aos seus sete ou oito anos e poder furar os meus olhos. Fingindo ter jogado a toalha para desmerecer a minha vitória, começou a “colocar” o goleiro, quando dos meus “chutes”, sem maiores cuidados, como se não ligasse por mais um ou outro gol. Evidentemente que a declaração que me havia sido feita em tempo remoto, mas que me acompanhava como um norte a perseguir para a superação do mestre, reaparecia sob ares de chacota a cada novo gol. A tirar pelo estado de espírito do derrotado da hora, era de se suspeitar que a ameaça pudesse se cumprir, mas a minha apoteose não permitia nenhum raciocínio moderado, que extrapolasse aquelas quatro linhas e o tempo de duração daquela partida. Pela altura dos nove a zero, o que era pura pirraça jogada, passou a ser tentativa desesperada de marcar apenas um único gol, que pudesse invalidar a minha conquista. Mas o dia era meu. Ao final do segundo tempo, cheguei ao décimo gol, em meio a uma alegria incontida, partilhada por minha mãe e acho que pelos vizinhos da rua, que não devem ter entendido muito bem o que ouviam. Apenas uma nota triste nisso tudo: assim que voltei da comemoração com o time e a torcida, em êxtase total, dei-me conta da séria contusão do goleiro adversário, que havia sido atirado ao chão por seu técnico e encontrava-se desacordado em campo, com o corpo rasgado e as tripas pra fora. Minutos depois, porém, o time e o técnico derrotado já participavam da festa e tudo ficou em paz. Isso nunca mais teve replay.

9.6.13

Maraca

Não me recordo se já era um desejo, se pedia, implorava, se minha mãe era quem dava pra trás ou se simplesmente não fazia a menor diferença. Talvez um meio termo entre os dois extremos, posto que da vontade ainda crua brotou um encantamento quando, numa tarde de sábado, meu pai, com o contentamento de quem sabe que vai agradar, convidou: “Vamos ao Maracanã, hoje?”. Foi como ser promovido ao time principal. Não lembro o trajeto, os ônibus, a barca, nem o tempo que levou até lá. Sei apenas que o Botafogo jogava com o Bonsucesso, de Jorge Demolidor. Ganhamos, 2 a 1. As arquibancadas não estavam cheias. Não me lembro dos gols nem da escalação. Não sei quem era o técnico nem se o Botafogo ainda tinha chances e disputava alguma coisa. Taça Guanabara ou Taça Rio? Não sei também. Além do meu pai sentado na poltrona de napa, amarelada, que ficava de frente pra porta da rua, com aquela luz ensolarada de sábado, duas da tarde, só me recordo da visão gradativa e dos sons do estádio à medida que subíamos a rampa de acesso, tal como se entrássemos em campo, eu no time do meu pai, e levado por ele pela mão.

Garnizé 3

Esta é memória adotada, doada por meu pai, que repasso: Zé, mesmo com o seu tímido ordenado, carrega o meu pai, garoto, para a Casa José Silva. Está interessado em ver os preços de umas roupas. O vendedor, simpático, oferece-lhe um sapato, e outro a meu pai. “Posso?”, pergunta o menino. “Pode”, responde o pai. Agradando, o vendedor investe sobre meias e camisas: “Ficam ótimas para o senhor! Quer levar?”. “Claro”, responde Zé, já meio embaraçado. “Estes modelos acabaram de chegar. E tem também para o tamanho do seu filho. Bonitas, não?”. “Bonitas”, interage seu Zé. “E calça?”, arremata o vendedor. A conta cresce na proporção do embaraço. Meu pai contabilizava as combinações que variaria em cada festa que fosse, quando, de súbito, sente-se puxado pela mão em direção à porta da rua. Identificando prontamente a locomotiva que o carrega, pergunta, abismado: “Papai, o que foi?”. “Fica quieto, rapaz, vamos embora que esse cara é doido. Eu nem quero comprar nada”. 

23.8.12

Jamanta

Era um sábado à noite, atípico. Meu avô, Edu, com seu fusca, convidou-nos para irmos a São Francisco tomar sorvete. Programa incomum aquele. Não freqüentávamos a Zona Sul de Niterói. No calor, as noites de sábado eram de cachorro-quente, pique-bandeira na rua, bola, cadeiras na calçada e música alta com a porta escancarada. Fomos todos, apertados no banco de trás, felizes. Havia vários carros onde paramos. Os quiosques pipocavam de gente. Cervejas, refrigerantes e sorvetes, com as portas dos carros abertas. Em dado momento, buzinas insistentes atraíram a atenção. Um imenso caminhão solicitava passagem no sentido contrário de onde nós e todo mundo estávamos estacionados. Era tão grande que roubou a memória do entorno, os detalhes de localização, que dariam mais graça e sentido ao relato. Lembro de meu pai e meu avô, de pé, dizendo ao motorista impaciente do gigante que ele não passaria. Não passará! Pedi para sair do carro, para não ficar alheio ao que acontecia, e também porque pra mim estava claro o que para os adultos parecia possível conter no grito: bastava o motorista acelerar. Não precisaria de convencimento. Aliás, não precisaria nem bater no meu pai e no meu avô juntos. Na minha inocência, misturada com a limpidez do que é possível enxergar apenas com olhos infantis, era uma questão de força, simplesmente. E eu não tinha dúvida de quem era o mais forte. Mas venceram os mais fracos, aprendi. O caminhão não passou.

Garnizé 2

Zé já doente, andar frágil, entortado para a esquerda, em Sumidouro se atirava pelo chão de terra contrariando o equilíbrio e a disposição do corpo. Na roça, que foi sempre o seu embrulho, a sua concha, não passava os dias sentado ocupado com o bailado monótono de pernas indecisas. Metia-se onde nem podia, andava em terreno fofo, escorregadio, aventurava-se. De uma vez, desaparecido da nossa vista e sem forças para responder aos nossos chamados, foi encontrado pela minha mãe estatelado, de barriga pra cima, em posição de redentor, sobre um generoso colchão de bagaços de cana, sobre o qual tinha escorregado. Perguntado, em tom impaciente de pergunta pra qual não se quer resposta, o que fazia ali afinal de contas, recolocou, com fina ironia, as coisas no seu devido lugar: “tô olhando pro céu!”

4.4.12

Uma tarde com Chico Galo

Alto, pele clara, andar altivo, lento, elegante, sempre de bermuda, camiseta e sandália. Jogador de futebol nos anos 1940/50, defendeu Bangu e Botafogo. Figura amistosa, doce, sempre com “um qualquer” no bolso para uma cerveja ou uma coca-cola para o filho de um amigo. Em pé no balcão dos botecos da Avenida Amaral Peixoto, em Niterói – onde morava, numa quitinete –, descalçava um dos pés e pousava-o sobre o joelho da outra perna. Recompunha-se para responder a uma saudação de um passante – e eram muitas –, bebia um gole e retomava a posição de descanso. Não era uma figura ingênua, Garnizé, mas carregava uma astúcia adormecida; parecia respeitado. Construíra certo prestígio e não carecia de muito esforço para mantê-lo. Tinha certa pinta de cafetão. Conheci Chico Galo em seu habitat, no boteco, em companhia de meu pai. Foram muitas cocas que tomei. Chico Galo exercia sobre meu pai um poder especial. Reverência, talvez. Não sei como meu pai o conheceu nem como com ele construiu esta ligação. Chico Galo foi uma espécie de pai complementar, que preenchia – com a malandragem –, a bondade e ingenuidade que sobravam e a experiência de uma vida forasteira que faltava no meu avô. Vi meu pai rir, reclamar da vida, da falta de dinheiro e do casamento com Chico Galo. Por não se freqüentarem, surpreendeu-me sempre aquela amizade sensível, cheia de admiração, que se ativava no momento do encontro fortuito – e os encontros eram sempre fortuitos. Parecia pra mim um pedaço da vida do meu pai do qual eu só conhecia a franja. E era. Uma única vez essa amizade se manifestou de modo coerente, pra mim, com a intensidade da admiração mútua que guardava. Chico Galo decidiu ir ver meu pai, num sábado, fazia sol. Não me lembro como deu notícia de sua chegada. Não era muito comum, tanto quanto ele desejasse, que meu pai parasse no bar da esquina de nossa rua. Quando acontecia, quase sempre eu estava junto. Era bar mesmo, com sardinha em conserva, ovo colorido, Caracu e falatório. Tão logo meu pai saiu para encontrar Chico Galo na esquina, minha mãe pôs o lenço na cabeça e Elis pra tocar na vitrola Vila Rica, de quatro pés. Arrumava a casa com a sofreguidão do subúrbio, onde as separações são sempre mais doídas. Eu transitava. Por gosto, ficava no bar. Por alguma solidariedade, de Édipo, talvez, voltava pra casa. Já passava da hora do almoço quando meu pai voltou em casa com um pacote de sardinhas, embrulhadas em jornal, presente de Chico Galo, e pediu que minha mãe preparasse, porque o amigo decidira ficar para o almoço. A melancolia virou raiva, mas tudo foi providenciado. Assumi a arrumação da parte da casa que ficava sempre por último, para receber Chico Galo. Hora mais tarde, sala arrumada, sardinhas fritas, arroz e salada prontos, mesa posta, cozinha suja e novamente limpa, às pressas, após a fritura. Corro até o bar para chamá-los. Volto sem eles, feito emissário que carrega o anúncio de uma guerra que não é sua, com a notícia de que Chico Galo estava decidido a não vir mais, não queria incomodar, mas pedia as sardinhas fritas para um tira-gosto no bar. Darwin, se ali comigo estivesse, se surpreenderia vendo os pequenos peixes voarem, sozinhos e desencontrados, jogando-se contra a parede, mergulhando na pia seca, deslizando pelo mármore, escondendo-se atrás do fogão e aventurando-se pelo quintal. Passada a torrente, pus-me a ajudar na coleta de punhados daquele estranho animal. Foi com tabuleiro forrado com papel de pão e coberto com pano de prato que cheguei ao bar. Vi nesse instante meu pai se dobrando numa gargalhada. Fiquei por ali algum tempo, pouco, mas o suficiente para mais uma coca-cola e para observá-los saboreando as sardinhas, lambendo os dedos, frente a frente, cada qual com um dos pés recolhidos do chinelo e apoiados sobre os joelhos. Coerência por coerência, aquela dupla não faria sentido se não fosse ali.

3.11.11

Garnizé

Foi sempre meio folclórico o meu avô Zé. Foi quem me deu o nome. Entre o Fábio da minha mãe e o Vladimir do meu pai (homenagem ao Palmeira), foi ele quem sentenciou: “André do sapado novo”, nome de um chorinho de André Victor Correa, que ele adorava, e que hoje adoro eu. Reza a lenda que ele me pediu para não chamá-lo de “avô”. O que sei é que, verdade ou mentira, não tenho registro de tê-lo chamado assim na vida. Zé quieto, matuto, na moita, mas muito engraçado vez em quando, que ria com cara de choro. Zé que não enxugava as costas quando saía do banho. Zé jogador do bicho, pontual e assíduo, Zé das histórias estapafúrdias, como na vez em que, para retribuir a gentileza da visita de um amigo seu, Sílvio, quase cego, como ele, decidiu guiá-lo até o ponto do ônibus e se viu, pelo mesmo amigo, trazido até em casa porque não enxergou o caminho de volta... ou como na vez em que, em Sumidouro, no sítio, quis porque quis resgatar o cavaleiro adormecido e, depois de muito preparo, do cavalo estrategicamente parado ao lado de uma pequena escada de pedra, montou de um lado e caiu do outro, estatelado, já sem forças de tanto rir de si mesmo... ou como quando fugiu do hospital em que se recuperava de uma cirurgia que sofreu por conta de um atropelamento, porque era dia do aniversário da minha avó (que faria hoje, enquanto escrevo, 87 anos), de pijama, e nunca mais apareceu... Zé admirado pelo meu pai, por ter sido operário, do Aime, pela simpleza e humildade, por ter sido músico (clarinete) e mulherengo. Zé combalido, mais quieto ainda depois da trombose, andando com muita dificuldade, entristecido e vegetando na mesma poltrona de sempre, cruzando e descruzando a perna, infinitamente, durante todo o dia. Zé levado ao Caio Martins, para ver o jogo do seu Botafogo, cada vez mais doente, ele, e também o Botafogo. Zé com o lábio caído num sábado, Zé sonhado por mim batendo na porta lá de casa e pedindo ajuda na véspera de sua morte. Zé morto, sentado na privada, vítima de enfarto fulminante. Zé era reserva de valores, se ofuscava pra mim, em vida, diante da minha avó, soberana. Se completavam na dupla – porque minha avó foi-se mais da metade quando ele morreu – mas Zé era coadjuvante. Zé hoje é a fonte da dignidade do trabalho que via no meu pai, é a memória do meu pai septuagenário que eu não cheguei a ter.