Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

26.3.06


Para inaugurar o espaço que, de tão devassado e anônimo, me soa como um diário pessoal escrito em público, apresento as palavras que me desobrigam das aspas no título:

Uma palavra (Chico)

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer tudo
Anterior ao entendimento, palavra.

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra.

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra.


A criação literária é, aqui, o único princípio ativo. Invento-me como leitor de mim mesmo, íntimo de meus pares antológicos... um misto de esconderijo e solitária. Vocês são quase intrusos, em plena praça pública e à luz do dia, mas bem-vindos.

A cada semana um tema norteará os textos aqui pendurados em varal puído. Hoje, a palavra é palavra, prima, em si, por si, só.


Outras palavras (Caetano)

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo trava mãe e papai, alma buena dicha loca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza: outras palavras...
Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo: outras palavras...
Nem vem que não tem, vem que tem coração tamanho trem
Como na palavra palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz, mas agora minha filha: outras palavras...
Quase João, Gil, Ben, muito bem, mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra frente: outras palavras...
Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei la guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania: outras palavras

x.x.x.x.x.

Uma palavra qualquer para (um) qualquer escritor... (AD)


Palavras... ditas irresponsavelmente. Devíamos ser obrigados a só falar coisas realmente interessantes. O mundo seria mais sincero, e menos barulhento. Pensamos tão pouco e tagarelamos demais. Já dizia o poeta que "em tempo ruim todo mundo também dá bom dia".
Talvez seja esta a angústia do escritor (o escritor escritor mesmo). A fala é sempre a tentativa de materialização do raciocínio, não importa do quê. O problema é que por ser comunitária (feita a exceção para os loucos), gera uma resposta e se torna infinita, interrompendo o curso livre da sua própria fonte, o pensamento. Como escrever é uma arte solitária, não se pode falar sozinho... daí que a sua materialização se dê no papel, e como nada é perfeito, eternize-se.
Vejamos o paradoxo: crítico da fala pela fala, que coíbe o pensamento e quase sempre pari baboseiras, o escritor "fala" com o papel, poupando os ouvidos alheios de suas pérolas. No entanto, enquanto a voz do imbecil se perde no espaço, as sentenças não menos imbecis do escritor galgam os degraus da posteridade. É uma merda...
Acho que estou pessimista. Estou não, sou mesmo, assumido. Não tenho muita coisa contra os otimistas, e psicólogos também. Acho-os apenas um tanto cômicos, desajeitados. Mas não é pra menos... Certa vez, cansado de escrever sem pensar, decidi abandonar o ofício – só voltaria nos braços do povo, mas acho que estou mais para Jânio que Getúlio. Semanas pensando num texto de despedida, humilde, que valorizasse a sapiência de minha autocrítica. Algo que marcasse, uma saída melancólica e ao mesmo tempo apoteótica. Nada... Optei então pela inovação da forma, deixando um pouco de lado o conteúdo. Escrevi uma página inteira de "pontos finais", um seguido do outro, e intitulei como: o fim (com minúsculas). Achei que todos entenderiam minhas angústias e aplaudiriam o único lampejo de genialidade que tive em toda a carreira. Antes, porém, de levar ao conhecimento público, submeti a um companheiro de profissão (que agora pretendia "ex"), otimista que só ele. Olha o que o desgraçado me respondeu, via correios, no dia seguinte: "Maravilhoso,
adorei as suas reticências, a esperança é a última que morre! Um texto sem palavras, cujos simples sinais gráficos negam a própria sugestão de metáfora do título. Enfim, não há fim (saquei, hein?!). Primoroso. Lembranças para o seu talento".
Depois disso, acho que vou ficando por aqui, lendo-me por falta de opção e escrevendo para continuar sem escolha.


Sobre a escrita... (Clarice L.)

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por uma extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo é por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.
Simplesmente não há palavras. O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.
Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.


Numa palavra:
Inté!

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

tem que atualizar e divulgar? Posso espalhar o link? :-)

12:16 PM  
Anonymous Anônimo said...

E no princípio era o verbo. Daí para frente, os mal-entendidos.

E o que você de tão constrangedor na pretensão?

Sobre o pessimismo: "O pessimista é uma pessoa que, podendo escolher entre dois males, prefere ambos."
(Oscar Wilde)

E sobre os escritores: Certa vez, perguntaram ao Bilac: 'Por que vocês fundaram um clube e passaram a se chamar de imortais? Que arrogância é essa?'. Bilac, que adorava ironias, deu uma resposta que me parece muito adequada: 'Não é arrogância, não, somos imortais porque não temos onde cair mortos'.
(Antonio Callado)

beijoca
vlarisse

10:44 PM  
Anonymous Anônimo said...

eu quis dizer: o que você vê de tão constrangedor na pretensão?

10:44 PM  
Anonymous Anônimo said...

Acho que depende muito da relação que mantivermos ao longo do tempo com a PALAVRA. A minha relação sempre foi de sofrimento e decepção. Saiba, meu jovem escritor, que a PALAVRA possui uma irmã gêmea, idêntica em certos aspectos, mas desprovida de qualquer beleza e conteúdo: a PALAVRA VÃ. Eu mesmo já persegui e tentei fazer com que a PALAVRA estivesse sempre ao meu lado, bela e formosa, mas quando eu mais me entusiasmava, descobria através de algum amigo ou escritor, ou mesmo por autocrítica, que estava apaixonado por sua irmã a PALAVRA VÃ. E lá vinha o desespero e a dor, substituindo o meu êxtase anterior, enganoso. Continuo perseguindo-a, cotidianamente, mesmo que não a escrevendo, mas guardando-a em pensamentos e mesmo que vá descobrir mais à frente, que estou ao lado não da tão aguardada PALAVRA, mas de sua irmã gêmea, ardilosa e traiçoeira, mas sem brilho algum. Como neste momento em que escrevo estas linhas. Não é o seu caso, meu caro escritor, que pelo texto acima, acertou na “mosca” ao enamorar-se pela “mulher” correta. Não desista, não pare. A paixão correspondida da PALAVRA é um privilégio só permitido a poucos e iluminados mortais.

Do velho escriba ANÔNIMO.

7:40 AM  
Anonymous Anônimo said...

Alcançar uma palavra é um processo estranho...será que ela realmente representa o que você pensou...pensar é associar palavras, idéias, fazer conexões...qual o limite entre a exatidão e a ilusão do significado ?

A vida é uma grande interpretação, uma hermenêutica do mundo constante e é essa constância que me angustia e ao mesmo tempo me move para a vida, para a morte, para vida e assim vai...

Muitas vezes há milhões de palavras na minha cabeça mas nenhuma consegue sair...o mundo está agindo em mim e vice-versa, é uma troca constante...a palavra talvez seja o veículo, o ação, o verbo, o existir...é isso, expressão por palavras é sinônimo de vida...

A palavra escrita, lida, pensada, gritada torna vivo o que já morreu...a Praça Onze só morreu materialmente

Olho a paisagem e ela ofusca as palavras...ao mesmo tempo que quero falar e gritar e berrar elas ficam presas...mas isso é a prova de que há vida, há mundo...enquanto houver palavras dentro de mim haverá vida dentro de mim...

Palavra e pensamento andam juntas, arrumar a casa, por em ordem para que eu possa entender o espaço...só palavra e pensamento me darão essa certeza...organizar nem sempre é fundamental, é importante, mas nem sempre fundamental...

abraço fundamental

7:27 AM  

Postar um comentário

<< Home