a palavra? não há...
mas se o que não há é o nada
o nada, pra ser nada, pode haver na palavra?
o nada na palavra talvez seja então o resto de haver que não cessa,
mesmo que resto, mesmo que quase nada
nada que resta pra pensar o nada
mesmo que o nada restante seja o nada da palavra
Eis então...
Pouco do que há cabe agora em mim. Sou tudo o que houve, reduzido, condensado neste segundo, neste, neste e neste outro... infinitamente. Mas o infinito não existe, no agora, é projeção, é aposta, e já não aposto nada, só neste fim que carrego nas mãos, nos pés, no desvio simples de rota, noventa graus para a esquerda. Tragado pela pobre condição de transeunte, que caminha sobre o meio-fio, como em corda-bamba, penso pôr à prova o mundo que suporto sob a minha pele. Eu e meu mundo, de todas as dores que acredito sofrer, em meio às pessoas que passam ao lado, ao largo, de antolhos... eu e meu mundo. Estou a meio passo de derramar uma catástrofe sobre o inteiro mundo que sustento, e não sou mais que o próprio meio-fio que suporta também, sem saber, esse mundo que sou. Penso, logo hesito. Existo, existirei até o fim da linha. Assalta-me, de súbito, o infinito novamente. Repilo-o, nego-o, fecho os olhos, acelero o passo, razão finita que sou, e piso, com força, o asfalto, quarenta e cinco, setenta, noventa graus... Aguardo o som das buzinas que prenunciarão o impacto, infinito útil, enganado, ludibriado, enfim... mas nada acontece, no agora, nunca, e nunca é sempre, infinito pandêmico. Encolhido quase, torto, abro os olhos sobre a faixa de pedestres e, ato irrefletido, constato, no agora, a barata que esmago com o peso do meu mundo, finita que só ela, a trinta, noventa ou cento e oitenta graus, sobre ou sob o asfalto, barata. Isto é o agora, o agora sou eu, e nada mais cabe em mim do pouco que há.
mas se o que não há é o nada
o nada, pra ser nada, pode haver na palavra?
o nada na palavra talvez seja então o resto de haver que não cessa,
mesmo que resto, mesmo que quase nada
nada que resta pra pensar o nada
mesmo que o nada restante seja o nada da palavra
Eis então...
O nada que resta (AD)
Pouco do que há cabe agora em mim. Sou tudo o que houve, reduzido, condensado neste segundo, neste, neste e neste outro... infinitamente. Mas o infinito não existe, no agora, é projeção, é aposta, e já não aposto nada, só neste fim que carrego nas mãos, nos pés, no desvio simples de rota, noventa graus para a esquerda. Tragado pela pobre condição de transeunte, que caminha sobre o meio-fio, como em corda-bamba, penso pôr à prova o mundo que suporto sob a minha pele. Eu e meu mundo, de todas as dores que acredito sofrer, em meio às pessoas que passam ao lado, ao largo, de antolhos... eu e meu mundo. Estou a meio passo de derramar uma catástrofe sobre o inteiro mundo que sustento, e não sou mais que o próprio meio-fio que suporta também, sem saber, esse mundo que sou. Penso, logo hesito. Existo, existirei até o fim da linha. Assalta-me, de súbito, o infinito novamente. Repilo-o, nego-o, fecho os olhos, acelero o passo, razão finita que sou, e piso, com força, o asfalto, quarenta e cinco, setenta, noventa graus... Aguardo o som das buzinas que prenunciarão o impacto, infinito útil, enganado, ludibriado, enfim... mas nada acontece, no agora, nunca, e nunca é sempre, infinito pandêmico. Encolhido quase, torto, abro os olhos sobre a faixa de pedestres e, ato irrefletido, constato, no agora, a barata que esmago com o peso do meu mundo, finita que só ela, a trinta, noventa ou cento e oitenta graus, sobre ou sob o asfalto, barata. Isto é o agora, o agora sou eu, e nada mais cabe em mim do pouco que há.
Numa palavra:
Inté!

5 Comments:
está muito legal só que eu acho que você podia falar da Marisa Monte eu acho que ficaria legal se falase dela ela é uma cantora muito boa!!! tanto que vocÊ FALOU DO Chico Buarque porque não poderi falar dela!!!
um beijão da sua querida filha Helena!!!
aí, meu véi: poeminha legal, gosto do conto desde a pré-estréia teefônica, coisa e tal. Mas trocadilho com as iniciais do autor no título... tsc tsc. Toma vergonha! jajajaja
agüardo novos posts.
beijoca
eu quis dizer "pré-estréia teLefônica", claro.
Abriu a janela. Um frescor da manhã invadiu a casa. As paredes brancas se misturam à doce brisa que soprava trazendo as aspirações de alegria para aquele dia. Era sexta e seu marido não trabalhava. Pôs a mesa do café, suco de laranja, creme, pão fresco, broas e croissants. O pano branco, o frescor, as paredes. Tudo era perfeito. E chega ele, lindo, após o banho, senta-se na mesa. Dá um bom dia acompanhado de um beijo. Que maravilha. Café e pão fresco na cama e na cozinha, dia sim, dia não ela lhe fazia uma surpresa. Quanto mimo. Quanto carinho. E foram às compras. Passear no centro, resolver coisas. Mãos dadas e fortemente entrelaçadas. Alegria perambulando pelo mar de gente apressada que se constrastava com eles. Que máximo !!! Um dia a parte. Pararam para tomar um sorvete...de pistache...humm...que delícia. Verde e saboroso...um colocando na boca do outro. Que amor. As pessoas passando e olhando...talvez sentissem inveja. Deixa pra lá. O dia era deles. Depois de resolver as pendêngas, tomar sorvete, comprar presentes e outros mimos um com o outro, viram-se dentro de uma sala bem aromatizada por incensos e ar refrigerado. Ela num ambiente de espera. Uma recepção limpa com uma atendente de coque toda alinhada. Visa, Mastercard e Diners. "Aproveite seu dia", dizia o cartaz e o foulder na bancada. Lindo tudo aquilo limpo parecia a metáfora do dia deles. De repente sai ele de dentro de uma espécie de consultório e atrás dele uma garota loura, sensual, ajeitando a parte de cima do biquini e alisando o cabelo com cara de safada e rosto de prazer. Ele, segurando o paletó, chega para a mulher e diz :
- E aí, amor...vamos ?
Eis que a mulher, apanhada de surpresa pois lia do revisteiro uma Marie Claire antiga, diz :
- Já...nossa...que rápido...e aí, comeu ?
- Comi, diz ele expressando um sorriso de satisfação e prazer...
- Ahhh, que bom...já pagou ? Diz a mulher, dando um sorriso de alegria ao ver o homem amado feliz e satisfeito
- Já sim, vamos, diz ele apressadamente pois agora seu estômago começava a roncar. Conheço um restaurante ótimo aqui perto, vamos lá.
- Vamos, vamos sim que estou com fome.
Abriram a porta da termas, pegaram o elevador, sairam de novo pela rua e se perderam no mar caótico do centro da cidade de dia.
ABUTRES E CARNIÇAS
O menino ergue seu frágil e magro corpo
Mais uma tentativa no sinal
Não há sinal de vida em tão esperançosa criatura
Olhos lacrimosos de remela retorcida
Dejeto da humanidade lançado às ruas
Limões ao alto
Já nasceu morto
Morto com fome
Sua mãe é a vida que o pariu
Apagado da memória, invisível das multidões
Aparece apenas nos sinais
Um dia para um carro preto
Ele se exibiu
Ao alto limões sem rumo
Ao fundo luzes de faróis
Começa o espetáculo
Gira um verde sem esperança
Verde do sinal
Perto do vidro
Se aproxima
Esperança ?
Vê nada
Cabeça cansada encostada
Pede um troco
Do outro lado o silêncio da sociedade
Sociedade dos abutres !!!
Eis sua carniça !!!
Sem resposta
Recuou
O carro arrancou
As luzes se apagaram
Aquele nada era eu
abraço,
Fernando
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