NOZ
Partir a casca da noz, daquela que lhe pareceu digna de golpe. Golpe que talvez não fosse único, covarde mesmo até, mais bruto do que exige a maldade, menos sádico do que requer a tortura - que prescinde do desespero, como quase nunca a bruteza. Os fins justificados pelos meios, abrir a noz, era só. Só, diante de um cemitério revirado de carcaças subjugadas, tombadas em campo aberto, fracassadas no seu propósito de defesa. Crônicas de mortes anunciadas e força de reação nenhuma. Reduzir o mérito dos vencedores de uma batalha viciada era o algo que sobrara a ser feito. Com a ajuda da umidade, da variação térmica, do manuseio displicente dos genocidas, deixar-se rolar para um canto insalubre da bancada do mercado, encaixar-se o quanto mais num infeliz congênere já em avançado estágio de putrefação, alçar um vôo forçado e tentar espatifar-se no chão ou, se escolhida, tratada e ornamentada, empalidecer a glória espartana, pretendida, do seu carrasco, oferecendo-se para o abate, desmanchando a resistência da couraça que, embora digna, dignifica apenas o opressor - carente, famélico -, posto que não pode sustentar, nem mesmo contra este, o embate propositalmente silencioso, que guarda para o final o estalido triunfante, também a cargo do derrotado - insonoro algoz -, da vitória que não lhe cabe na batalha que é só sua.
