Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

16.12.08

RÍMINI ÀS AVESSAS

Desperta, não por qualquer sobressalto, mas pela longuíssima noite de tempo que sobre a cidade se abatera, de súbito, retomou a ciência de si ao dobrar-se sobre, entre, pelo, através do corpo desabado ao seu lado. Alimentou-se do sentido daquela silhueta, que ritmava o seu passo e temperava o seu choro. Ergueu-se, nua, lenta, empurrando com os pés as muitas almofadas ao redor, gelatinosa moldura. Estranhou a sensação de perceber-se retardatária de si mesma a cada pequeno gesto, estroboscópica. Via, tocava, cheirava e lambia para em seguida duvidar dos sentidos. Não compreendia o silêncio da sua rua, nem o dos vizinhos. Não se ouvia quando de repente assim mesmo sem vírgula pausa dramática uma interjeição de espanto saída de sua boca imóvel assustou-a. Um leve beliscão seguiu-se à vermelhidão ansiosa, precipitada, em seu braço, na tentativa ingênua, hollywoodiana, de desvencilhar-se da letargia. O seu corpo inteiro exalava o cheiro do amor que ainda não fizera. Era o átimo. Quando ensaiou o retorno ao leito, para congelar-se de volta, enroscar-se ao amante tão íntimo, eterno e desconhecido, que não viera a nada, que viera simplesmente, foi mais uma vez desperta, ao toque indiferente de um telefone que, por lhe prometer a retomada do auto-controle, atendeu. Sob completo desenredo, posto que não é dado compreender o átimo, completou, no som da voz, o que até então era só imagem fugidia. Reles proposta de trabalho, de revisão, texto, pretexto, vinda de um quase anônimo, algo interessante, a se pensar para mais tarde, um adeus protocolar, a promessa de um contrato, ou contato, ouvido displicente pregado ao mesmo corpo que já amava, concentrado, marcado no movimento, insciente então até somente. O átimo definitivo, qualidade do que define, literal assim. Do que não se deu conta é que o amor imensurável faz vezes de cronos e, desabrigado de romance e fortuna, contido na desimportância, inverte o tempo e faz lembrar do futuro.

10.12.08

a MURALHA de borges

Não houvera até então na história da arquitetura notícia incongruente como aquela. Nem a assimetria vitoriana, nem o anti-cartesianismo barroco, tampouco, proveriam de sentido, o menor que fosse, aquela construção. Do seu autor não restou assinatura, croqui ou qualquer vestígio. Gerações seguidas dos mais velhos do lugar garantem há séculos que o paredão fora erguido, em verdade, a quatro mãos, guiadas por olhos que nunca se viram. Contam há séculos as gerações dos mais jovens do lugar que a brutal diferença de altura entre o lado interno e o lado externo da construção é obra do recente. A única coisa certa, entretanto, é que a despeito do que digam uns e outros, vêem-se ainda hoje jovens e velhos arriscando-se do lado baixo e do lado alto, respectivamente a parte interna e a parte externa da imponente amurada. De sorte que o limite superior da estrutura, apenas o limite, seja o mesmo para as duas bandas – e nisso, precisamente, reside o mistério – e as laterais assumam, de início, a altura exata de sua contra-face independentemente da escolha do aventureiro, é virtuosa a constatação de que os mais e os menos ousados, de um lado e de outro, nunca se cruzem quando logram transpô-la, uns com um simples movimento de pernas, como se montassem num cavalo de pedra, outros com a destreza necessária a uma aranha, feito amansadores de rochas escarpadas. Ao que se diz, um encontro insólito e improvável como este aconteceu somente uma vez, entre um moço e um velho estranhamente parecidos. Sentados frente a frente, cada qual com um pé no chão e outro a pender nas alturas, travaram ríspido diálogo. Como se do velho partissem impropérios e descomposturas, ofegantes porque dele brotava o alpinista adormecido, do jovem transbordava insuportável serenidade, própria da crença juvenil na eternidade. Descrente de sua futura decrepitude, este não hesitaria em livrar-se do velho atirando-o de volta às profundezas de onde viera. Se lançasse mão das forças que ainda lhe sustinham, o velho lograria, também, não sem culpa, a interrupção do que, suspeitava, redundaria, fatalmente, nele próprio. O outro e o mesmo num átimo onde somente um caberia. Cientes do inusitado insolúvel a que estavam expostos, já mudos, incapazes de contar consigo, tombaram cada qual para o lado de onde emergiram, sem desfecho ímpar, sem nobreza poética, mas inteiros. Reza a lenda que desde então suas sombras inverteram-se, de modo que não restou ao tempo, desafiado, alternativa outra senão revelar-se, pelo avesso do que parece, paralelo, fluido, simultâneo. Isto, à primeira vista, é o muro decifrado, mas à primeira vista o mesmo tempo parece linear, invariável, palpável, previsível. Como no encontro inesperado, aos aventureiros vindouros restará devolver ao agora o seu quanto de eternidade.