a MURALHA de borges
Não houvera até então na história da arquitetura notícia incongruente como aquela. Nem a assimetria vitoriana, nem o anti-cartesianismo barroco, tampouco, proveriam de sentido, o menor que fosse, aquela construção. Do seu autor não restou assinatura, croqui ou qualquer vestígio. Gerações seguidas dos mais velhos do lugar garantem há séculos que o paredão fora erguido, em verdade, a quatro mãos, guiadas por olhos que nunca se viram. Contam há séculos as gerações dos mais jovens do lugar que a brutal diferença de altura entre o lado interno e o lado externo da construção é obra do recente. A única coisa certa, entretanto, é que a despeito do que digam uns e outros, vêem-se ainda hoje jovens e velhos arriscando-se do lado baixo e do lado alto, respectivamente a parte interna e a parte externa da imponente amurada. De sorte que o limite superior da estrutura, apenas o limite, seja o mesmo para as duas bandas – e nisso, precisamente, reside o mistério – e as laterais assumam, de início, a altura exata de sua contra-face independentemente da escolha do aventureiro, é virtuosa a constatação de que os mais e os menos ousados, de um lado e de outro, nunca se cruzem quando logram transpô-la, uns com um simples movimento de pernas, como se montassem num cavalo de pedra, outros com a destreza necessária a uma aranha, feito amansadores de rochas escarpadas. Ao que se diz, um encontro insólito e improvável como este aconteceu somente uma vez, entre um moço e um velho estranhamente parecidos. Sentados frente a frente, cada qual com um pé no chão e outro a pender nas alturas, travaram ríspido diálogo. Como se do velho partissem impropérios e descomposturas, ofegantes porque dele brotava o alpinista adormecido, do jovem transbordava insuportável serenidade, própria da crença juvenil na eternidade. Descrente de sua futura decrepitude, este não hesitaria em livrar-se do velho atirando-o de volta às profundezas de onde viera. Se lançasse mão das forças que ainda lhe sustinham, o velho lograria, também, não sem culpa, a interrupção do que, suspeitava, redundaria, fatalmente, nele próprio. O outro e o mesmo num átimo onde somente um caberia. Cientes do inusitado insolúvel a que estavam expostos, já mudos, incapazes de contar consigo, tombaram cada qual para o lado de onde emergiram, sem desfecho ímpar, sem nobreza poética, mas inteiros. Reza a lenda que desde então suas sombras inverteram-se, de modo que não restou ao tempo, desafiado, alternativa outra senão revelar-se, pelo avesso do que parece, paralelo, fluido, simultâneo. Isto, à primeira vista, é o muro decifrado, mas à primeira vista o mesmo tempo parece linear, invariável, palpável, previsível. Como no encontro inesperado, aos aventureiros vindouros restará devolver ao agora o seu quanto de eternidade.

4 Comments:
Muito, muito, muito bom.
O outro também é minha obsessão borgiana preferida. E meu maior medo é que no fim das contas o que me distancie da minha alpinista cansada sejam apenas o tom e dificuldsde pra respirar. Mas tudo bem, na pior das hipóteses a gente senta e conta história ;)
Você viu Vicky Cristina Barcelona?
Vicky Cristina Barcelona é muito bom, mas não tem nada a ver com este post. É só pra aproveitar a viagem. jajajaja
beijo!!!
Público esse sentimento, experiência nossa, compartilhada, tão abstrata na leitura externa das palavras, tão concreta na sua realização de vida. Muralha de escolha. Lindo e profundo, como a sua inspiração.
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