O carnaval de Nossa Senhora...
Foi num carnaval distante no tempo e na memória que decidi ganhar algum dinheiro pela primeira vez. Cordões e pulseiras de tamanhos variados, costuradas a fio de semanas e náilon, nos intervalos da bola-de-gude e do futebol. Colhidas num sítio da família bem no início daquelas férias, e trazidas em saco de plástico espesso, foram as lágrimas de Nossa Senhora que alimentaram o meu trabalho surdo, mudo e cego para arredores. Ao fim da labuta de dias, sexta-feira de carnaval, o banho, nem tão desejado, me recompensava o suor acumulado em sofá de napa de um amarelo quase dourado. De surdez em surdez, de mudez em mudez, o silêncio se desfez, simples, com palavra pouca, quando ousei dirigir-me à porta e anunciar o que todos naquela casa sabiam, e sabiam que me negariam, como quem permite a um crédulo velar noite adentro o sono de alguém muito querido, mas em velório particular.
Dezenas, talvez centenas de peças, dispostas em caixa de madeira improvisada, equipada com tira para o entorno do pescoço. Como poderia um menino, que nem pretinho era, banhado e escovado, matriculado em escola e que até dentista tinha, imiscuir-se no bailado desencontrado daqueles muitos outros pretinhos que tomavam a avenida, suados, sem dentes? Não poderia. O relato sobreviverá sem que prossiga.
Centenas de pequeninas sementes, acinzentadas, quicando, chocando-se contra a parede, a porta, transbordando para o chão da rua, desprendidas, arrancadas dos delicados fios que as mantinham em diversos grupos alinhados, expandindo-se aos bueiros e poças d´água, por minhas mãos, subitamente demiúrgicas, fizeram o seu carnaval...
