Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

26.9.11

O carnaval de Nossa Senhora...

Foi num carnaval distante no tempo e na memória que decidi ganhar algum dinheiro pela primeira vez. Cordões e pulseiras de tamanhos variados, costuradas a fio de semanas e náilon, nos intervalos da bola-de-gude e do futebol. Colhidas num sítio da família bem no início daquelas férias, e trazidas em saco de plástico espesso, foram as lágrimas de Nossa Senhora que alimentaram o meu trabalho surdo, mudo e cego para arredores. Ao fim da labuta de dias, sexta-feira de carnaval, o banho, nem tão desejado, me recompensava o suor acumulado em sofá de napa de um amarelo quase dourado. De surdez em surdez, de mudez em mudez, o silêncio se desfez, simples, com palavra pouca, quando ousei dirigir-me à porta e anunciar o que todos naquela casa sabiam, e sabiam que me negariam, como quem permite a um crédulo velar noite adentro o sono de alguém muito querido, mas em velório particular.
Dezenas, talvez centenas de peças, dispostas em caixa de madeira improvisada, equipada com tira para o entorno do pescoço. Como poderia um menino, que nem pretinho era, banhado e escovado, matriculado em escola e que até dentista tinha, imiscuir-se no bailado desencontrado daqueles muitos outros pretinhos que tomavam a avenida, suados, sem dentes? Não poderia. O relato sobreviverá sem que prossiga.
Centenas de pequeninas sementes, acinzentadas, quicando, chocando-se contra a parede, a porta, transbordando para o chão da rua, desprendidas, arrancadas dos delicados fios que as mantinham em diversos grupos alinhados, expandindo-se aos bueiros e poças d´água, por minhas mãos, subitamente demiúrgicas, fizeram o seu carnaval...

Ecos

É dia de sol nessa franja de memória que me conduz até aqui, flamejante. Talvez já tenha sido mais viva a intensidade da luz, o encharcado da água, a agonia de meus braços incapazes, a nitidez das vozes ao redor, minha respiração suspensa. Sinto que terminarei nublado, mas ainda não é hora. Meus olhos, úmidos como agora, insistem em negar-me a ignorância do perigo, do medo e do fracasso. Diariamente, pelas manhãs, tento subvertê-los, quando com sua ajuda involuntária calculo o melhor momento para atirar-me à frente dos carros velozes que circundam a Lagoa. Mancomunados com o que há de mais inconsciente em mim, de mais íntimo e desconhecido, logram sempre a interrupção do meu movimento, oferecendo-me em seguida um imenso cardápio de medos, saudades e dores pungentes, como agora, enquanto observo, grato até, o importado vermelho que me estraçalharia de uma só vez sumindo na curva. Amanhã, recomeço.