Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

26.9.11

Ecos

É dia de sol nessa franja de memória que me conduz até aqui, flamejante. Talvez já tenha sido mais viva a intensidade da luz, o encharcado da água, a agonia de meus braços incapazes, a nitidez das vozes ao redor, minha respiração suspensa. Sinto que terminarei nublado, mas ainda não é hora. Meus olhos, úmidos como agora, insistem em negar-me a ignorância do perigo, do medo e do fracasso. Diariamente, pelas manhãs, tento subvertê-los, quando com sua ajuda involuntária calculo o melhor momento para atirar-me à frente dos carros velozes que circundam a Lagoa. Mancomunados com o que há de mais inconsciente em mim, de mais íntimo e desconhecido, logram sempre a interrupção do meu movimento, oferecendo-me em seguida um imenso cardápio de medos, saudades e dores pungentes, como agora, enquanto observo, grato até, o importado vermelho que me estraçalharia de uma só vez sumindo na curva. Amanhã, recomeço.