Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

23.10.11

Corujão

Deitado na poltrona larga, amarelada, misturo as falas de minha mãe, já quase sem forças para me fazer ir pra cama ou ficar de pé, com os diálogos do filme preto e branco que assisto no Corujão, pouco acima da tona do meu sono. Mas falta alguma coisa, diária, habitual. A casa dorme inteira, ainda que de fato só a minha irmã tenha adormecido. É quase uma da manhã quando a chave da porta gira e chega o meu pai, da faculdade cursada em Ipanema, com o cheiro suado que eu aguardava. Um abraço feliz, um beijo, cama e mais um pouco do diálogo misturado do Corujão, agora com o personagem central da trama. Pra mim aquilo nunca acabaria, eu sempre dormia antes. Era bom. Mas o filme acabou, cessaram os diálogos, meu pai não vai mais chegar com seu cheiro honesto. Ronronam agora as pequenas, cheias do meu cheiro, enquanto eu não durmo mais o mesmo.

12.10.11

Prenúncio idiomático de Clarisse

Clara nasceu trágica, cinematográfica, Almodóvar total. Com dois meses de idade precisou operar uma hérnia (de ovário, acho), que faltava pouco para estrangular. Foi coisa corrida, pra ontem. Todo mundo comovido, temendo que ela não suportasse. A gravidade (ou o medo) era tanta (tanto), que ouvimos de uma coveira: “Pra quem daremos as roupinhas?”. Passado o susto, Claralisse voltou, meio lerda, como até então, e sequelada: toda vez que se vestia uma blusa nela, quando a gola demorava um pouco a passar pelo nariz, a guria achava que ia tomar outra anestesia, outro cheirinho, e se debatia toda (até hoje não sei se era trauma mesmo ou crise de abstinência! Coincidência ou não, isso passou quando ela entrou pra UFF... para o Cinema da UFF...). Mas o fato é que o efeito da anestesia durou até uns dois anos de idade. Um dia acabou, e aí... num sábado, para mostrar a que vinha, ela roubou, numa velocidade impressionante, a maçã que Carol comia, ainda na primeira mordida. Foi coisa de profissional. O corpo até então não tinha correspondido à mente. Diante da surpresa de todos, ela se escondeu no quarto com o produto do roubo e voltou para a sala, minutos depois, sem qualquer vestígio do vegetal, sem dizer palavra, sem esboçar sorriso maroto. Era um elemento perigoso, sem dúvida. Daí pra diante, perdemos, eu e Carolina, a condescendência de Pestalozzi, e passamos a tratá-la de igual pra igual, de marginal pra marginal. As implicâncias eram muitas, sobretudo porque era engraçado ver a sua raiva chegando ao limite. Ela atacava com os dentes, quase sempre. Morria de ódio porque não conseguia morder a parte interna da minha mão, esticada, que eu oferecia para ser castigado. Carolina, que até então era vítima exclusiva das minhas implicâncias, não resistiu à sede de poder e descontou um bocado sobre a maninha temporã. Minha mãe, tolinha, tentava administrar o inadministrável. Era um caos... muito simpático, até! Mas Clarisse, Almodóvar total, um dia nos desconcertou. Muito irritada, depois de tentar todas as investidas possíveis, sem sucesso, se dirigiu para a pequena mesa de canto, que havia sobrevivido do Barreto, abaixou-se e mordeu com toda a vontade o tampo de mármore. Enquanto mordia, gritava e babava. Foi de chorar... de rir! Enquanto minha mãe pensava em sanatório, vislumbrávamos ainda vagamente, eu e Carol, o algo que ela queria expressar, nos dizer, mas que não conseguia (de novo, o corpo não acompanhava a mente...). Muito mais tarde, a força daquela mordida se materializou, sofisticadamente, condensada em partícula ínfima, na enérgica e inigualável expressão recriada pela mana – que hoje também se reinventou Vlarisse – e doada generosamente a todas as comunidades humanas que a cercam, num raio de quilômetros, sempre que não há um tampo de mármore ao alcance: “CÚ!!!!!!!!!!!!!!!”

8.10.11

Fogo vivo

Numa tarde solta, no sítio, férias de Pedrinho, topei subir a trilha de terra, mato e pedra que levava à plantação, cuidada pela bisavó distante, sazonal, Gabriela, que na minha fantasia servia como Dona Benta, mesmo sem o colo e as histórias. Comigo, Zé, meu avô Zé, Garnizé, matuto, e o moço Reinaldo, menino abrigado, recolhido pela velha Gabriela, um quase Mogli. Os dois, identificados pelo mato, onde melhor se sentiam, mais eu, subimos pra tirar mandioca. As ferramentas: enxada com Reinaldo, meu avô com o balde e eu... com a caixa de fósforos. Os quase adultos nada diziam enquanto me viam acender um palito atrás do outro, sobre o mato seco, janeiro. Pra mim, ciência nenhuma. Palito aceso, caído até o chão, não durava segundo, pensava comodamente enquanto me expandia pelo maior laboratório pirotécnico que já estivera sob o meu comando – até então, só um quintal carbonizado aqui, uma lixeira de plástico em labareda ali, uma garrafa de álcool quase explodida acolá. Muito não tardou. Em pouco menos de meia hora, calor, vento e o presentinho de Prometeu entraram em acordo e puseram, quase, o sítio abaixo. As chamas se aproximaram da casa. A essa altura, Garnizé já havia sumido. Mogli agarrara-se no primeiro cipó e escafedera-se também. Eu, o capturado, ouvi meu pai prometer morte e minha mãe a mutilação, para o caso dele falhar. Atordoado, ameacei o suicídio. Meu pai, mesmo muito atarefado, prontamente ofereceu ajuda. A outra Dona Benta, a de fato, ameaçava deserdar o filho único se o mau-humor com o neto dela não cessasse de imediato. E tome balde daqui, mangueira de lá, vala, cuspe, valia tudo. Mas eis que surge a velha Gabriela, que acabara de cumprir seis quilômetros desde a cidade, a pé. Antevi o meu fim. Gruta da Cuca, minha Guantánamo. Senso prático, não teve tempo nem para saber ao certo o que se passava. Assumiu o comando das operações e, sob enorme constrangimento de meus pais, fulminou: “André não tem culpa!”. Melhorado o ambiente, pude até observar um pouco, sem o receio da dor física, os movimentos da tropa improvisada. Afinal, não é todo dia que se pode acompanhar, de tão perto, um incêndio, acho que pensei na hora. E era bem verdade que os dias já estavam ficando meio monótonos. Quando cansei daquilo, fui pescar no rio. Poucas horas depois, quando retornei, já supondo que tudo estivesse acabado, folguei em saber que o fazendeiro vizinho, que fora decisivo para a contenção do fogo, atendia por André (Seu Dedé). Estufei o peito de orgulho e, no caminho para o banho, lembrei, feliz, que meu pai havia prometido para aquela noite montar uma grande fogueira. Como estava rendendo o meu dia!
A casa hoje vive apenas em mim. Visitei-a há poucos anos. Claro, como sempre, pareceu-me muito menor do que na largueza da memória de menino. Mesmo combalida, paredes rachadas, deu pra sentir o seu cheiro, impregnado ainda. A saudade mesmo veio agora. Ironia tamanha, a água da chuva que naquele janeiro remoto, por escassa, abriu caminho para o fogo, que fracassou; num mesmo janeiro, no longínquo 2011, mostrou como é que se faz e levou a casa com ela.