Numa tarde solta, no sítio, férias de Pedrinho, topei subir a trilha de terra, mato e pedra que levava à plantação, cuidada pela bisavó distante, sazonal, Gabriela, que na minha fantasia servia como Dona Benta, mesmo sem o colo e as histórias. Comigo, Zé, meu avô Zé, Garnizé, matuto, e o moço Reinaldo, menino abrigado, recolhido pela velha Gabriela, um quase Mogli. Os dois, identificados pelo mato, onde melhor se sentiam, mais eu, subimos pra tirar mandioca. As ferramentas: enxada com Reinaldo, meu avô com o balde e eu... com a caixa de fósforos. Os quase adultos nada diziam enquanto me viam acender um palito atrás do outro, sobre o mato seco, janeiro. Pra mim, ciência nenhuma. Palito aceso, caído até o chão, não durava segundo, pensava comodamente enquanto me expandia pelo maior laboratório pirotécnico que já estivera sob o meu comando – até então, só um quintal carbonizado aqui, uma lixeira de plástico em labareda ali, uma garrafa de álcool quase explodida acolá. Muito não tardou. Em pouco menos de meia hora, calor, vento e o presentinho de Prometeu entraram em acordo e puseram, quase, o sítio abaixo. As chamas se aproximaram da casa. A essa altura, Garnizé já havia sumido. Mogli agarrara-se no primeiro cipó e escafedera-se também. Eu, o capturado, ouvi meu pai prometer morte e minha mãe a mutilação, para o caso dele falhar. Atordoado, ameacei o suicídio. Meu pai, mesmo muito atarefado, prontamente ofereceu ajuda. A outra Dona Benta, a de fato, ameaçava deserdar o filho único se o mau-humor com o neto dela não cessasse de imediato. E tome balde daqui, mangueira de lá, vala, cuspe, valia tudo. Mas eis que surge a velha Gabriela, que acabara de cumprir seis quilômetros desde a cidade, a pé. Antevi o meu fim. Gruta da Cuca, minha Guantánamo. Senso prático, não teve tempo nem para saber ao certo o que se passava. Assumiu o comando das operações e, sob enorme constrangimento de meus pais, fulminou: “André não tem culpa!”. Melhorado o ambiente, pude até observar um pouco, sem o receio da dor física, os movimentos da tropa improvisada. Afinal, não é todo dia que se pode acompanhar, de tão perto, um incêndio, acho que pensei na hora. E era bem verdade que os dias já estavam ficando meio monótonos. Quando cansei daquilo, fui pescar no rio. Poucas horas depois, quando retornei, já supondo que tudo estivesse acabado, folguei em saber que o fazendeiro vizinho, que fora decisivo para a contenção do fogo, atendia por André (Seu Dedé). Estufei o peito de orgulho e, no caminho para o banho, lembrei, feliz, que meu pai havia prometido para aquela noite montar uma grande fogueira. Como estava rendendo o meu dia!
A casa hoje vive apenas em mim. Visitei-a há poucos anos. Claro, como sempre, pareceu-me muito menor do que na largueza da memória de menino. Mesmo combalida, paredes rachadas, deu pra sentir o seu cheiro, impregnado ainda. A saudade mesmo veio agora. Ironia tamanha, a água da chuva que naquele janeiro remoto, por escassa, abriu caminho para o fogo, que fracassou; num mesmo janeiro, no longínquo 2011, mostrou como é que se faz e levou a casa com ela.