Garnizé
Foi sempre meio folclórico o meu avô Zé. Foi quem me deu o nome. Entre o Fábio da minha mãe e o Vladimir do meu pai (homenagem ao Palmeira), foi ele quem sentenciou: “André do sapado novo”, nome de um chorinho de André Victor Correa, que ele adorava, e que hoje adoro eu. Reza a lenda que ele me pediu para não chamá-lo de “avô”. O que sei é que, verdade ou mentira, não tenho registro de tê-lo chamado assim na vida. Zé quieto, matuto, na moita, mas muito engraçado vez em quando, que ria com cara de choro. Zé que não enxugava as costas quando saía do banho. Zé jogador do bicho, pontual e assíduo, Zé das histórias estapafúrdias, como na vez em que, para retribuir a gentileza da visita de um amigo seu, Sílvio, quase cego, como ele, decidiu guiá-lo até o ponto do ônibus e se viu, pelo mesmo amigo, trazido até em casa porque não enxergou o caminho de volta... ou como na vez em que, em Sumidouro, no sítio, quis porque quis resgatar o cavaleiro adormecido e, depois de muito preparo, do cavalo estrategicamente parado ao lado de uma pequena escada de pedra, montou de um lado e caiu do outro, estatelado, já sem forças de tanto rir de si mesmo... ou como quando fugiu do hospital em que se recuperava de uma cirurgia que sofreu por conta de um atropelamento, porque era dia do aniversário da minha avó (que faria hoje, enquanto escrevo, 87 anos), de pijama, e nunca mais apareceu... Zé admirado pelo meu pai, por ter sido operário, do Aime, pela simpleza e humildade, por ter sido músico (clarinete) e mulherengo. Zé combalido, mais quieto ainda depois da trombose, andando com muita dificuldade, entristecido e vegetando na mesma poltrona de sempre, cruzando e descruzando a perna, infinitamente, durante todo o dia. Zé levado ao Caio Martins, para ver o jogo do seu Botafogo, cada vez mais doente, ele, e também o Botafogo. Zé com o lábio caído num sábado, Zé sonhado por mim batendo na porta lá de casa e pedindo ajuda na véspera de sua morte. Zé morto, sentado na privada, vítima de enfarto fulminante. Zé era reserva de valores, se ofuscava pra mim, em vida, diante da minha avó, soberana. Se completavam na dupla – porque minha avó foi-se mais da metade quando ele morreu – mas Zé era coadjuvante. Zé hoje é a fonte da dignidade do trabalho que via no meu pai, é a memória do meu pai septuagenário que eu não cheguei a ter.
