Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

4.4.12

Uma tarde com Chico Galo

Alto, pele clara, andar altivo, lento, elegante, sempre de bermuda, camiseta e sandália. Jogador de futebol nos anos 1940/50, defendeu Bangu e Botafogo. Figura amistosa, doce, sempre com “um qualquer” no bolso para uma cerveja ou uma coca-cola para o filho de um amigo. Em pé no balcão dos botecos da Avenida Amaral Peixoto, em Niterói – onde morava, numa quitinete –, descalçava um dos pés e pousava-o sobre o joelho da outra perna. Recompunha-se para responder a uma saudação de um passante – e eram muitas –, bebia um gole e retomava a posição de descanso. Não era uma figura ingênua, Garnizé, mas carregava uma astúcia adormecida; parecia respeitado. Construíra certo prestígio e não carecia de muito esforço para mantê-lo. Tinha certa pinta de cafetão. Conheci Chico Galo em seu habitat, no boteco, em companhia de meu pai. Foram muitas cocas que tomei. Chico Galo exercia sobre meu pai um poder especial. Reverência, talvez. Não sei como meu pai o conheceu nem como com ele construiu esta ligação. Chico Galo foi uma espécie de pai complementar, que preenchia – com a malandragem –, a bondade e ingenuidade que sobravam e a experiência de uma vida forasteira que faltava no meu avô. Vi meu pai rir, reclamar da vida, da falta de dinheiro e do casamento com Chico Galo. Por não se freqüentarem, surpreendeu-me sempre aquela amizade sensível, cheia de admiração, que se ativava no momento do encontro fortuito – e os encontros eram sempre fortuitos. Parecia pra mim um pedaço da vida do meu pai do qual eu só conhecia a franja. E era. Uma única vez essa amizade se manifestou de modo coerente, pra mim, com a intensidade da admiração mútua que guardava. Chico Galo decidiu ir ver meu pai, num sábado, fazia sol. Não me lembro como deu notícia de sua chegada. Não era muito comum, tanto quanto ele desejasse, que meu pai parasse no bar da esquina de nossa rua. Quando acontecia, quase sempre eu estava junto. Era bar mesmo, com sardinha em conserva, ovo colorido, Caracu e falatório. Tão logo meu pai saiu para encontrar Chico Galo na esquina, minha mãe pôs o lenço na cabeça e Elis pra tocar na vitrola Vila Rica, de quatro pés. Arrumava a casa com a sofreguidão do subúrbio, onde as separações são sempre mais doídas. Eu transitava. Por gosto, ficava no bar. Por alguma solidariedade, de Édipo, talvez, voltava pra casa. Já passava da hora do almoço quando meu pai voltou em casa com um pacote de sardinhas, embrulhadas em jornal, presente de Chico Galo, e pediu que minha mãe preparasse, porque o amigo decidira ficar para o almoço. A melancolia virou raiva, mas tudo foi providenciado. Assumi a arrumação da parte da casa que ficava sempre por último, para receber Chico Galo. Hora mais tarde, sala arrumada, sardinhas fritas, arroz e salada prontos, mesa posta, cozinha suja e novamente limpa, às pressas, após a fritura. Corro até o bar para chamá-los. Volto sem eles, feito emissário que carrega o anúncio de uma guerra que não é sua, com a notícia de que Chico Galo estava decidido a não vir mais, não queria incomodar, mas pedia as sardinhas fritas para um tira-gosto no bar. Darwin, se ali comigo estivesse, se surpreenderia vendo os pequenos peixes voarem, sozinhos e desencontrados, jogando-se contra a parede, mergulhando na pia seca, deslizando pelo mármore, escondendo-se atrás do fogão e aventurando-se pelo quintal. Passada a torrente, pus-me a ajudar na coleta de punhados daquele estranho animal. Foi com tabuleiro forrado com papel de pão e coberto com pano de prato que cheguei ao bar. Vi nesse instante meu pai se dobrando numa gargalhada. Fiquei por ali algum tempo, pouco, mas o suficiente para mais uma coca-cola e para observá-los saboreando as sardinhas, lambendo os dedos, frente a frente, cada qual com um dos pés recolhidos do chinelo e apoiados sobre os joelhos. Coerência por coerência, aquela dupla não faria sentido se não fosse ali.