Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

23.8.12

Jamanta

Era um sábado à noite, atípico. Meu avô, Edu, com seu fusca, convidou-nos para irmos a São Francisco tomar sorvete. Programa incomum aquele. Não freqüentávamos a Zona Sul de Niterói. No calor, as noites de sábado eram de cachorro-quente, pique-bandeira na rua, bola, cadeiras na calçada e música alta com a porta escancarada. Fomos todos, apertados no banco de trás, felizes. Havia vários carros onde paramos. Os quiosques pipocavam de gente. Cervejas, refrigerantes e sorvetes, com as portas dos carros abertas. Em dado momento, buzinas insistentes atraíram a atenção. Um imenso caminhão solicitava passagem no sentido contrário de onde nós e todo mundo estávamos estacionados. Era tão grande que roubou a memória do entorno, os detalhes de localização, que dariam mais graça e sentido ao relato. Lembro de meu pai e meu avô, de pé, dizendo ao motorista impaciente do gigante que ele não passaria. Não passará! Pedi para sair do carro, para não ficar alheio ao que acontecia, e também porque pra mim estava claro o que para os adultos parecia possível conter no grito: bastava o motorista acelerar. Não precisaria de convencimento. Aliás, não precisaria nem bater no meu pai e no meu avô juntos. Na minha inocência, misturada com a limpidez do que é possível enxergar apenas com olhos infantis, era uma questão de força, simplesmente. E eu não tinha dúvida de quem era o mais forte. Mas venceram os mais fracos, aprendi. O caminhão não passou.

Garnizé 2

Zé já doente, andar frágil, entortado para a esquerda, em Sumidouro se atirava pelo chão de terra contrariando o equilíbrio e a disposição do corpo. Na roça, que foi sempre o seu embrulho, a sua concha, não passava os dias sentado ocupado com o bailado monótono de pernas indecisas. Metia-se onde nem podia, andava em terreno fofo, escorregadio, aventurava-se. De uma vez, desaparecido da nossa vista e sem forças para responder aos nossos chamados, foi encontrado pela minha mãe estatelado, de barriga pra cima, em posição de redentor, sobre um generoso colchão de bagaços de cana, sobre o qual tinha escorregado. Perguntado, em tom impaciente de pergunta pra qual não se quer resposta, o que fazia ali afinal de contas, recolocou, com fina ironia, as coisas no seu devido lugar: “tô olhando pro céu!”