Jamanta
Era um sábado à noite, atípico. Meu avô, Edu,
com seu fusca, convidou-nos para irmos a São Francisco tomar sorvete. Programa
incomum aquele. Não freqüentávamos a Zona Sul de Niterói. No calor, as noites
de sábado eram de cachorro-quente, pique-bandeira na rua, bola, cadeiras na
calçada e música alta com a porta escancarada. Fomos todos, apertados no banco
de trás, felizes. Havia vários carros onde paramos. Os quiosques pipocavam de gente.
Cervejas, refrigerantes e sorvetes, com as portas dos carros abertas. Em dado
momento, buzinas insistentes atraíram a atenção. Um imenso caminhão solicitava
passagem no sentido contrário de onde nós e todo mundo estávamos estacionados.
Era tão grande que roubou a memória do entorno, os detalhes de localização, que
dariam mais graça e sentido ao relato. Lembro de meu pai e meu avô, de pé, dizendo
ao motorista impaciente do gigante que ele não passaria. Não passará! Pedi para
sair do carro, para não ficar alheio ao que acontecia, e também porque pra mim
estava claro o que para os adultos parecia possível conter no grito: bastava o
motorista acelerar. Não precisaria de convencimento. Aliás, não precisaria nem
bater no meu pai e no meu avô juntos. Na minha inocência, misturada com a
limpidez do que é possível enxergar apenas com olhos infantis, era uma questão
de força, simplesmente. E eu não tinha dúvida de quem era o mais forte. Mas
venceram os mais fracos, aprendi. O caminhão não passou.
