Maraca
Não me recordo se já era um desejo, se pedia,
implorava, se minha mãe era quem dava pra trás ou se simplesmente não fazia a
menor diferença. Talvez um meio termo entre os dois extremos, posto que da
vontade ainda crua brotou um encantamento quando, numa tarde de sábado, meu pai,
com o contentamento de quem sabe que vai agradar, convidou: “Vamos ao Maracanã,
hoje?”. Foi como ser promovido ao time principal. Não lembro o trajeto, os
ônibus, a barca, nem o tempo que levou até lá. Sei apenas que o Botafogo jogava
com o Bonsucesso, de Jorge Demolidor. Ganhamos, 2 a 1. As arquibancadas não
estavam cheias. Não me lembro dos gols nem da escalação. Não sei quem era o
técnico nem se o Botafogo ainda tinha chances e disputava alguma coisa. Taça
Guanabara ou Taça Rio? Não sei também. Além do meu pai sentado na poltrona de
napa, amarelada, que ficava de frente pra porta da rua, com aquela luz
ensolarada de sábado, duas da tarde, só me recordo da visão gradativa e dos
sons do estádio à medida que subíamos a rampa de acesso, tal como se
entrássemos em campo, eu no time do meu pai, e levado por ele pela mão.
