Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

9.6.13

Maraca

Não me recordo se já era um desejo, se pedia, implorava, se minha mãe era quem dava pra trás ou se simplesmente não fazia a menor diferença. Talvez um meio termo entre os dois extremos, posto que da vontade ainda crua brotou um encantamento quando, numa tarde de sábado, meu pai, com o contentamento de quem sabe que vai agradar, convidou: “Vamos ao Maracanã, hoje?”. Foi como ser promovido ao time principal. Não lembro o trajeto, os ônibus, a barca, nem o tempo que levou até lá. Sei apenas que o Botafogo jogava com o Bonsucesso, de Jorge Demolidor. Ganhamos, 2 a 1. As arquibancadas não estavam cheias. Não me lembro dos gols nem da escalação. Não sei quem era o técnico nem se o Botafogo ainda tinha chances e disputava alguma coisa. Taça Guanabara ou Taça Rio? Não sei também. Além do meu pai sentado na poltrona de napa, amarelada, que ficava de frente pra porta da rua, com aquela luz ensolarada de sábado, duas da tarde, só me recordo da visão gradativa e dos sons do estádio à medida que subíamos a rampa de acesso, tal como se entrássemos em campo, eu no time do meu pai, e levado por ele pela mão.

Garnizé 3

Esta é memória adotada, doada por meu pai, que repasso: Zé, mesmo com o seu tímido ordenado, carrega o meu pai, garoto, para a Casa José Silva. Está interessado em ver os preços de umas roupas. O vendedor, simpático, oferece-lhe um sapato, e outro a meu pai. “Posso?”, pergunta o menino. “Pode”, responde o pai. Agradando, o vendedor investe sobre meias e camisas: “Ficam ótimas para o senhor! Quer levar?”. “Claro”, responde Zé, já meio embaraçado. “Estes modelos acabaram de chegar. E tem também para o tamanho do seu filho. Bonitas, não?”. “Bonitas”, interage seu Zé. “E calça?”, arremata o vendedor. A conta cresce na proporção do embaraço. Meu pai contabilizava as combinações que variaria em cada festa que fosse, quando, de súbito, sente-se puxado pela mão em direção à porta da rua. Identificando prontamente a locomotiva que o carrega, pergunta, abismado: “Papai, o que foi?”. “Fica quieto, rapaz, vamos embora que esse cara é doido. Eu nem quero comprar nada”.