Bronquite 2
Notívago compulsório, com minha boemia
peregrina, cumprida na cola de minha mãe, mais ou menos entre junho e setembro,
ano após ano, era a minha sina infantil de asmático. Vaporizador era o que
havia de mais avançado em termos de recurso doméstico para o combate da
marvada. Quase sempre não dava nem pra saída. (Mais tarde, já adolescente, mas
apenas até as primeiras notícias de paradas cardíacas em usuários contumazes,
valia também a bombinha de Aerolin). Tudo era tentado antes do HUAP (Antônio
Pedro para os mais chegados): posição para abertura forçada dos brônquios,
banho gelado com insistente jorro sobre o peito, Revenil para a expectoração, distração
para fingir que a crise não existia e o indesejado supositório. Invariavelmente
este arsenal de estratégias se encerrava por volta de duas ou três da manhã. Lá
íamos nós, eu e minha mãe, também invariavelmente, para a única droga que me
trazia de volta: ADRENALINA na veia, na minha maca cativa. Pegávamos um táxi da
praça ou minha mãe pedia ao vizinho, seu Weber, para nos levar. Normalmente,
com a ajuda do vento da janela, que acabava com a pirraça dos brônquios, eu
saltava do carro bom, mas bastavam uns minutos para o retorno da chiadeira no
peito. Dessa vez, não foi de casa que partimos, mas da casa de minha avó
materna. Saímos com minha tia e uma médica amiga da família. Como era noite
alta, entramos num táxi (era tempo em que táxis tinham cores variadas). Este
era laranja, um Passat muito velho. O trajeto era relativamente curto, mas
coube muita coisa no pouco tempo. Minha tia no banco da frente, eu atrás, à
direita, minha mãe ao centro e Gracinha à esquerda. Sinal verde em uma quase
madrugada e o motorista parado no cruzamento. Estranham as adultas, mas
continuam a conversa. O carro arranca segundos depois que o sinal fecha, a
tempo exato de tomar uma pancada em cheio, na lateral de Gracinha. A laranja de
lata, amassada, roda na pista com a força do impacto. Para o hospital foi nossa
querida amiga em meu lugar, curado da crise por uma dose cavalar da droga de
fabricação caseira.
