Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

20.11.15

Bronquite 2

Notívago compulsório, com minha boemia peregrina, cumprida na cola de minha mãe, mais ou menos entre junho e setembro, ano após ano, era a minha sina infantil de asmático. Vaporizador era o que havia de mais avançado em termos de recurso doméstico para o combate da marvada. Quase sempre não dava nem pra saída. (Mais tarde, já adolescente, mas apenas até as primeiras notícias de paradas cardíacas em usuários contumazes, valia também a bombinha de Aerolin). Tudo era tentado antes do HUAP (Antônio Pedro para os mais chegados): posição para abertura forçada dos brônquios, banho gelado com insistente jorro sobre o peito, Revenil para a expectoração, distração para fingir que a crise não existia e o indesejado supositório. Invariavelmente este arsenal de estratégias se encerrava por volta de duas ou três da manhã. Lá íamos nós, eu e minha mãe, também invariavelmente, para a única droga que me trazia de volta: ADRENALINA na veia, na minha maca cativa. Pegávamos um táxi da praça ou minha mãe pedia ao vizinho, seu Weber, para nos levar. Normalmente, com a ajuda do vento da janela, que acabava com a pirraça dos brônquios, eu saltava do carro bom, mas bastavam uns minutos para o retorno da chiadeira no peito. Dessa vez, não foi de casa que partimos, mas da casa de minha avó materna. Saímos com minha tia e uma médica amiga da família. Como era noite alta, entramos num táxi (era tempo em que táxis tinham cores variadas). Este era laranja, um Passat muito velho. O trajeto era relativamente curto, mas coube muita coisa no pouco tempo. Minha tia no banco da frente, eu atrás, à direita, minha mãe ao centro e Gracinha à esquerda. Sinal verde em uma quase madrugada e o motorista parado no cruzamento. Estranham as adultas, mas continuam a conversa. O carro arranca segundos depois que o sinal fecha, a tempo exato de tomar uma pancada em cheio, na lateral de Gracinha. A laranja de lata, amassada, roda na pista com a força do impacto. Para o hospital foi nossa querida amiga em meu lugar, curado da crise por uma dose cavalar da droga de fabricação caseira.