Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

23.10.11

Corujão

Deitado na poltrona larga, amarelada, misturo as falas de minha mãe, já quase sem forças para me fazer ir pra cama ou ficar de pé, com os diálogos do filme preto e branco que assisto no Corujão, pouco acima da tona do meu sono. Mas falta alguma coisa, diária, habitual. A casa dorme inteira, ainda que de fato só a minha irmã tenha adormecido. É quase uma da manhã quando a chave da porta gira e chega o meu pai, da faculdade cursada em Ipanema, com o cheiro suado que eu aguardava. Um abraço feliz, um beijo, cama e mais um pouco do diálogo misturado do Corujão, agora com o personagem central da trama. Pra mim aquilo nunca acabaria, eu sempre dormia antes. Era bom. Mas o filme acabou, cessaram os diálogos, meu pai não vai mais chegar com seu cheiro honesto. Ronronam agora as pequenas, cheias do meu cheiro, enquanto eu não durmo mais o mesmo.

2 Comments:

Blogger Helena said...

Nossa pai! Me deixou triste, que coisa! Beijo.

9:15 PM  
Anonymous Cátia said...

Lindo, como a sua saudade.

5:44 PM  

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