Palavra Prima

"A literatura é perfeitamente inútil: a sua única utilidade é que ajuda a viver" (Claude Roy)

12.10.11

Prenúncio idiomático de Clarisse

Clara nasceu trágica, cinematográfica, Almodóvar total. Com dois meses de idade precisou operar uma hérnia (de ovário, acho), que faltava pouco para estrangular. Foi coisa corrida, pra ontem. Todo mundo comovido, temendo que ela não suportasse. A gravidade (ou o medo) era tanta (tanto), que ouvimos de uma coveira: “Pra quem daremos as roupinhas?”. Passado o susto, Claralisse voltou, meio lerda, como até então, e sequelada: toda vez que se vestia uma blusa nela, quando a gola demorava um pouco a passar pelo nariz, a guria achava que ia tomar outra anestesia, outro cheirinho, e se debatia toda (até hoje não sei se era trauma mesmo ou crise de abstinência! Coincidência ou não, isso passou quando ela entrou pra UFF... para o Cinema da UFF...). Mas o fato é que o efeito da anestesia durou até uns dois anos de idade. Um dia acabou, e aí... num sábado, para mostrar a que vinha, ela roubou, numa velocidade impressionante, a maçã que Carol comia, ainda na primeira mordida. Foi coisa de profissional. O corpo até então não tinha correspondido à mente. Diante da surpresa de todos, ela se escondeu no quarto com o produto do roubo e voltou para a sala, minutos depois, sem qualquer vestígio do vegetal, sem dizer palavra, sem esboçar sorriso maroto. Era um elemento perigoso, sem dúvida. Daí pra diante, perdemos, eu e Carolina, a condescendência de Pestalozzi, e passamos a tratá-la de igual pra igual, de marginal pra marginal. As implicâncias eram muitas, sobretudo porque era engraçado ver a sua raiva chegando ao limite. Ela atacava com os dentes, quase sempre. Morria de ódio porque não conseguia morder a parte interna da minha mão, esticada, que eu oferecia para ser castigado. Carolina, que até então era vítima exclusiva das minhas implicâncias, não resistiu à sede de poder e descontou um bocado sobre a maninha temporã. Minha mãe, tolinha, tentava administrar o inadministrável. Era um caos... muito simpático, até! Mas Clarisse, Almodóvar total, um dia nos desconcertou. Muito irritada, depois de tentar todas as investidas possíveis, sem sucesso, se dirigiu para a pequena mesa de canto, que havia sobrevivido do Barreto, abaixou-se e mordeu com toda a vontade o tampo de mármore. Enquanto mordia, gritava e babava. Foi de chorar... de rir! Enquanto minha mãe pensava em sanatório, vislumbrávamos ainda vagamente, eu e Carol, o algo que ela queria expressar, nos dizer, mas que não conseguia (de novo, o corpo não acompanhava a mente...). Muito mais tarde, a força daquela mordida se materializou, sofisticadamente, condensada em partícula ínfima, na enérgica e inigualável expressão recriada pela mana – que hoje também se reinventou Vlarisse – e doada generosamente a todas as comunidades humanas que a cercam, num raio de quilômetros, sempre que não há um tampo de mármore ao alcance: “CÚ!!!!!!!!!!!!!!!”

4 Comments:

Blogger Helena said...

Quaantas vezes eu já presenciei um momento de "CÚÚÚ!!!!" heein?! haha, beeijo, sua filha

7:46 PM  
Blogger André Dantas said...

Sua tia, minha filha, uma educadora de berço!

2:19 PM  
Blogger Unknown said...

Eu já abandonei essa prática há alguns anos. É um clássico com edição limitada.

11:23 PM  
Anonymous Vlarisse said...

Voltando só pra dizer que ainda me identifico. Ainda. Cu!

2:14 PM  

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