Jogo de botão
“Eu nunca mais jogo botão!”, foi o que disse meu
pai quando sonhei alto com a possibilidade de, um dia, dar de 10 a 0 nele. E
não aconteceria mesmo, ele era muito melhor. Jogávamos bastante, quase toda
noite, depois da janta. Eram campeonatos extensos, inchados, que misturavam
diversas federações – uma espécie de Brasileirão de todas as séries. Entravam
todos os times que eu conseguia angariar, algo em torno de 15 ou 20, acho.
Dividíamos todos entre nós dois e distribuíamos pelas chaves, como uma espécie
de técnicos onipotentes. Não importavam os times, a competição era entre os
seus comandantes (na fórmula 1 seria como um campeonato de “construtores”). Acontecia
que dois times “meus” (em muito menor frequência) ou “dele” tivessem que se
enfrentar na final, e nesses casos um de nós já levantava a taça
antecipadamente, mas sem deixar de cumprir tabela – era jogo de entrega das
faixas. A estrutura era complexa: as balizas eram de madeira, vindas direto da
marcenaria perto de casa, com redes coladas de filó e sobra suficiente para
estufarem nos gols; as bolas eram redondas de fato, “fornecidas” pelas “chucas”
de cabelo da minha irmã, devidamente lixadas até tornarem-se lisas e brancas;
os goleiros eram de caixas de fósforos cheias de moedas e pregos, encapados com
papel e com escudo colado; o campo era o chão do meu quarto, marcado a giz
molhado, surrupiado da escola, nas reentrâncias dos tacos de madeira; todos os
botões recebiam nomes dos jogadores reais de cada time à época, colados com
fita adesiva, em cima ou em baixo; as palhetas eram fichas coloridas utilizadas
nos ônibus, que a memória já quase não consegue explicar o que eram. Nos
divertíamos e brigávamos também. Éramos nós os juízes, éramos nós as crianças.
Ficaram na memória muitas goleadas, jogos tensos, vitórias apertadas, títulos
suados, gols olímpicos, por cobertura, “de cabeça”, bolas impossíveis, defesas
extraordinárias... Mas houve um dia em que o impossível foi desmoralizado.
Jogávamos um jogo trivial, de meio de campeonato, eu com o Vasco, se não me
engano, e a contagem começou: um, dois, três a zero, pra mim. A criança que
habitava meu pai, e que também vive dando o ar da graça comigo, tomou conta do
pedaço. Contrariado, humilhado e nervoso, aquela estrutura óssea de adulto não
cabia no mau-humor infantil que tomou conta do seu Jorge quando cheguei ao
sexto gol. Estávamos ainda no primeiro tempo e a essa altura minha mãe, a única
expectadora distante de sempre, era seguidamente convocada a presenciar a
façanha. A gozação atiçava ainda mais o moleque, que teria dado a vida para
voltar aos seus sete ou oito anos e poder furar os meus olhos. Fingindo ter
jogado a toalha para desmerecer a minha vitória, começou a “colocar” o goleiro,
quando dos meus “chutes”, sem maiores cuidados, como se não ligasse por mais um
ou outro gol. Evidentemente que a declaração que me havia sido feita em tempo
remoto, mas que me acompanhava como um norte a perseguir para a superação do
mestre, reaparecia sob ares de chacota a cada novo gol. A tirar pelo estado de
espírito do derrotado da hora, era de se suspeitar que a ameaça pudesse se
cumprir, mas a minha apoteose não permitia nenhum raciocínio moderado, que
extrapolasse aquelas quatro linhas e o tempo de duração daquela partida. Pela
altura dos nove a zero, o que era pura pirraça jogada, passou a ser tentativa
desesperada de marcar apenas um único gol, que pudesse invalidar a minha
conquista. Mas o dia era meu. Ao final do segundo tempo, cheguei ao décimo gol,
em meio a uma alegria incontida, partilhada por minha mãe e acho que pelos
vizinhos da rua, que não devem ter entendido muito bem o que ouviam. Apenas uma
nota triste nisso tudo: assim que voltei da comemoração com o time e a torcida,
em êxtase total, dei-me conta da séria contusão do goleiro adversário, que
havia sido atirado ao chão por seu técnico e encontrava-se desacordado em
campo, com o corpo rasgado e as tripas pra fora. Minutos depois, porém, o time e o
técnico derrotado já participavam da festa e tudo ficou em paz. Isso nunca mais
teve replay.
